Poesia é arte construída, arquitetura da linguagem. Nela, sentimento e emoção transformam-se em versos e estrofes que reinauguram o ato de observar o mundo. Através da poesia pode-se apresentar a realidade, seja ela boa ou ruim, com um toque de sensibilidade. Examinemos o seguinte poema de Mário Quintana:
Guerra
Os aviões abatidos
São cruzes caindo do céu.
O mesmo tema tratado no poema acima, poderia ser apresentado de forma objetiva, através de uma notícia ou qualquer outro texto jornalístico. No entanto, o autor utilizou a emoção, a conotação e a sensibilidade, sem deixar de expressar-se de forma crítica.
Acontece que muitas vezes toda essa emoção e sensibilidade restringe-se a um público reduzido. As pessoas não lêem poemas. A própria escola, na maioria das vezes, prioriza o estudo dos gêneros textuais jornalísticos, tendo como base o conteúdo exigido no vestibular. Dessa forma, a poesia é deixada em segundo plano, impossibilitando um trabalho de resgate da própria sensibilidade dos alunos.
Numa sociedade em que predomina a tecnologia, a informação, a objetividade, torna-se pequeno o gosto pela leitura, principalmente de poemas. Assim, se o público não alcança a poesia, a poesia deve alcançar o público. Daí surge a necessidade de expansão da poesia oral. Se o público não lê, deve, ao menos, ouvir.
A performance poética é uma das formas de levar a poesia a diversos tipos de público e fazer que as pessoas se encantem com os poemas, reconheçam os autores e passem a se interessar por essa arte.
Dentro dessa perspectiva, o Grupo Verso de Boca, um Projeto de Extensão, formado por alunas do Curso de Letras da Universidade Federal do Ceará vem atuando desde 1999, levando a poesia para todo o tipo de público, variando temáticas e fazendo que as pessoas descubram as diferentes funções da poesia. Esta é utilizada pelo grupo como arma, apresentando-se uma visão do mundo diferente. O grupo procura passar toda emoção e sentimentalidade para as pessoas sentirem prazer ao ouvir poemas.
Através deste projeto o Grupo Verso de boca cumpre o seu papel de extensão cultural, pois se propõe a propagar a arte de dizer versos nos mais diferentes locais de nossa sociedade.
Sendo assim, o Verso de Boca objetiva oferecer ao público, em geral, uma oportunidade de ouvir diferentes autores da literatura universal, brasileira, cearense e local.
Ao praticar a arte de dizer versos, também se almeja resgatar a oralidade, estimular o estudo da literatura, bem como resgatar o lado lúdico da poesia e auxiliar na criação de novos grupos poéticos incentivando, dessa forma, a transformação social através do mundo das letras.
Diante de todos os tipos de produção que a sociedade atual comporta, há uma produção pertencente ao domínio da literatura que, apesar de representar um dos marcos iniciais da produção literária ocidental, tem-se afastado progressivamente da preferência ou mesmo do conhecimento de grande parcela da sociedade brasileira.
Não há dúvida que esta situação deve-se a uma série de fatores sociais que tem relação direta com a literatura. Dentre estes complicadores destacam-se a ausência de divulgação da poesia e as incompatibilidades entre o homem fruto da sociedade capitalista e o processo de fruição estética a partir do vivido da leitura de poemas.
Assim, com a finalidade de aproximar os variados segmentos sociais e a experiência resultante do contato com a poesia, estimulando, conseqüentemente, sua procura, o Grupo Verso de Boca assume o compromisso de amenizar os empecilhos citados, atuando através da transmissão de conteúdos poéticos, de forma solidária, dinâmica, ou seja, realizando a mais pura poesia de maneira a atingir aqueles indivíduos que guardam reserva quanto à leitura de poemas, que não tiveram a oportunidade de usufruir esteticamente deste gênero ou que são dominados pela passividade ante as mídias visuais.
O meio de difusão e de realização da poesia sofreu um longo processo de adaptação à realidade de cada povo. Na Antiguidade, os rapsodos anunciavam-na por meio de um discurso oral, fixado posteriormente pela escrita; durante a Idade Média, sua difusão ocorria predominantemente por meio da oralidade, passada à lírica trovadoresca. A poesia passa a ser composta para a leitura individual, sempre com o fito “de deleitar e de comover”. Possuidora de um código lingüístico específico a sua natureza conotativa por excelência, solicita ao receptor a competência que lhe permita associar a forma que se apresenta e o conteúdo que lhe subjaz, a fim de apreender o estado de espírito do “eu” lírico. Se assim não ocorrer, haverá então o bloqueio parcial da comunicação.
Realizando tal procedimento, o Grupo, transmite o efeito lírico, indiretamente ao público que ainda não o experimentou ou que encontra dificuldades em fazê-lo, de forma a despertar o interesse por tal experiência que se torna completa por meio da catársis empreendida pela performance das apresentações projetadas.
A entoação, o ritmo, e a melodia dos versos, aliados à postura adequada e às técnicas expressivas provocam no espectador a apreensão de “um tipo de consciência que o espetáculo do mundo não produz ordinariamente”.

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